sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Segue a minha versão do corvo/the raven do edgar allan poe/fernando pessoa
O corvo
Numa meia noite ansioso, ponderava com assombro
Sobre previsões de como minha vida ia acabar
Quando quase enlouquecia, foi que ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
"É uma vista" eu dizia "esta batendo em meus umbrais"
É só isso e nada mais
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio de dezembro
E o fogo então morrendo urdia sombras desiguais
Ah, pudera a madrugada passar toda dedicada
A esquecer (em vão!) a amada, hoje além de nós mortais
Essa cujo nome sabem só as hostes celestiais
Sem o nome aqui jamais!
E o silêncio e o frio e o escuro, e os sons dos meus sussuros
Que juntados a isso tudo, nunca me assustaram mais
Mas a mim mesmo infundindo força eu ia repetindo
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais
É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
fui dizendo ao visitante "decerto me desculpais;
É que eu me encontrava lendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais
E a treva enorme fitando, e perdido e receando,
E ali tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, junto àquela paz maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
E eu disse o nome dela e o eco o disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Ouvi outro som batendo e me chamando mais e mais.
"Por certo" disse eu "aquela bulha é na minha janela"
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Lembro que eu me distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Fez-se presente a carcaça de um corvo mais e mais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com sua presença dura e com seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual é o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que bem pouco amparo me dessem palavras tais.
Pois deve ser concedido que ninguém teria crido
Que uma ave tenha tido pousado nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre os meus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase cujo em uso a alma pode condensar
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu ainda, "são as vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Com sua presença dura no alvo busto em meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que queria esta agoureira ave com palavras tais,
Ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
A ave naquele momento me cravou os olhos fatais,
E eu todo era estar pensando, e a cabeça reclinando
Sem entender o corvo olhando-me entre sobras desiguais,
Naquele lugar onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Em que anjos andam lentos com seus passos musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Deve ter sido o capeta quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize mim a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus cuja avareza nos fez pobres e mortais.
Esta alma entristecida encontrará em outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de atenas preso sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minha alma dessa sombra que se alonga mais e mais
Libertar-se-á... nunca mais!
quinta-feira, 12 de março de 2009
hehehehe eu me lembro de quando era pequeno e minha mãe me ensinou o que era uma rima. Estavamos subindo para o segundo andar das pernambucanas daqui de Ribeirão Pires, na época os degraus eram grandes e acompanhar a minha mãe distraida com a loja era um grande esforço que eu tinha que fazer.
Então eu perguntei pra ela:
- Mãe, o que que é rima?
Ela ficou um pouco incomodada de ter que dividir as suas atenções entre eu e o atendente da loja que mostrava o caminho para uma mercadooria qualquer, mas me respondeu:
- Rima meu filho é quando o final de duas palavras é igual como...
- Igual balão bobão? respondi eu apressado.
- Isso meu filho, isso...
Eu fiquei feliz de ter aprendido o balão bobão, mas depois eu sosseguei porque afinal de contas ela tinha que comprar um edredon novo pro aniversário da minha avó... E em tudo isso tinha alguma coisa que eu não conseguia entender com a minha cabeça de criança. Minha mãe não deve nem ter percebido, mas naquele dia ela me ensinou o que significava fazer poesia^^
Então eu perguntei pra ela:
- Mãe, o que que é rima?
Ela ficou um pouco incomodada de ter que dividir as suas atenções entre eu e o atendente da loja que mostrava o caminho para uma mercadooria qualquer, mas me respondeu:
- Rima meu filho é quando o final de duas palavras é igual como...
- Igual balão bobão? respondi eu apressado.
- Isso meu filho, isso...
Eu fiquei feliz de ter aprendido o balão bobão, mas depois eu sosseguei porque afinal de contas ela tinha que comprar um edredon novo pro aniversário da minha avó... E em tudo isso tinha alguma coisa que eu não conseguia entender com a minha cabeça de criança. Minha mãe não deve nem ter percebido, mas naquele dia ela me ensinou o que significava fazer poesia^^
domingo, 8 de março de 2009
Poema novo^^
Soneto do amor incerto
Houve um tempo em que estive apaixonado
Nem quero me lembrar dessa tristeza
Amar é se deixar ser enganado
Pelos vis artifícios da beleza
Pior, pra mais me ver atormentado
Resolve o amor usar maior destreza
Descontente em me ver só não amado
Resolve tirar mesmo essa certeza
Não sei se é por acaso eu estar sozinho
Se é tudo um turbilhão que nos separa
Se é um capricho louco do destino
Mas mesmo tendo tudo isso na alma
Me lanço enfim nesse redemoinho
E eu nado e nado e nado... e ela nada
Houve um tempo em que estive apaixonado
Nem quero me lembrar dessa tristeza
Amar é se deixar ser enganado
Pelos vis artifícios da beleza
Pior, pra mais me ver atormentado
Resolve o amor usar maior destreza
Descontente em me ver só não amado
Resolve tirar mesmo essa certeza
Não sei se é por acaso eu estar sozinho
Se é tudo um turbilhão que nos separa
Se é um capricho louco do destino
Mas mesmo tendo tudo isso na alma
Me lanço enfim nesse redemoinho
E eu nado e nado e nado... e ela nada
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